“Não podemos conhecer todos os fatos, e é preciso escolher aqueles que são dignos de serem conhecidos. A se acreditar em Tolstoi, os cientistas fariam essa escolha ao acaso, ao invés de fazê-lo – o que seria razoável – tendo em vista aplicações práticas. Os cientistas, ao contrário, crêem que certos fatos são mais interessantes que outros, porque contemplam uma harmonia inacabada, ou porque fazem prever um grande número de outros fatos. Se estão errados, se essa hierarquia dos fatos que implicitamente postulam não é mais que uma vã ilusão, não poderia haver ciência pela ciência, e por conseguinte não poderia haver ciência. Quanto a mim, creio que eles têm razão e, por exemplo, mostrei qual é o alto valor dos fatos astronômicos, não porque sejam suscetíveis de aplicações préticas, mas porque são os mais intuitivos de todos.
Só pela ciência e pela arte as civilizações tem valor. Alguns espantaram – se com a fórmula: “a ciência pela ciência”; e contudo ela não é menos surpreendente que “a vida pela vida”, se a vida não é mais que miséria; e até mesmo que “a felicidade pela felicidade”, se não julgarmos que todos os prazeres são da mesma qualidade, se não quisermos admitir que o objetivo da civilização é o de fornecer álcool aos que gostam de beber.
Toda ação deve ter um objetivo. Devemos sofre, devemos trabalhar, devemos pagar nosso lugar no espetáculo, mas é para ver; ou ao menos para que um dia nos vejam.
Tudo o que não é pensamento é o puro nada, uma vez que não podemos pensar que o pensamento e todas as palavras de que dispomos para falar de coisas só podem exprimir pensamentos; dizer que há outra coisa que não o pensamento, portanto, é uma afirmação que não pode ter sentido.
E contudo – estranha contradição para aqueles que crêem no tempo – a história geológica nos mostra que a vida não é mais que um curto episódio entre duas eternidades de morte e que, nesse próprio episódio, o pensamento consciente não durou e não durará mais que um momento. O pensamento não é mais que um clarão em meio a uma longa noite.
Mas esse clarão é tudo.“
O valor da ciência, Henri Poincaré