Apple e psico-história

Eu costumo demorar para escrever artigos, e gostaria que esse fosse bem mais elaborado do que acabou sendo, mas apesar de eu estar de férias da faculdade meu trabalho tem consumido bastante do meu tempo.

Desculpas a parte, escolhi fazer esse artigo meio as pressas pois queria a

presentar algo sobre a Apple que tivesse a ver com o dia de hoje. Quem acompanha as notícias de informática já deve estar sabendo que hoje a Apple se pronunciará sobre uma novíssima criação que ninguem sabe direito o que é mas espera que seja algum computador super portátil, facil de usar, num formato parecido com uma prancheta.

Praticamente não há mais o que falar sobre isso até que haja o lançamento oficial, mas após ler o primeiro livro da triologia da Fundação de Asimov e ter ficado fascinado com a ciência chamada psico-história, vou tentar dar uma de Hari Seldon e prever o futuro próximo. Minhas fontes são alguns depoimentos de Steve Jobs ao longo dos ultimos anos e  análises da história da tecnologia.  De fato imagino que dentro da Apple também tem alguém prevendo o futuro.

Alan Kay foi um dos pioneiros da computação e tinha uma frase que gosto muito: “A melhor maneira de prever o futuro é inventá-lo”. Ele mesmo inventou alguns conceitos que sabia que só se concretizariam no futuro. A imagem acima é do Dynabook, conceito criado em 1968, de um computador com interface gráfica, bateria de duração quase eterna e voltado principalmente para crianças (de todas as idades). Quando o famoso computador Alto foi criado, ele foi chamado por Kay de Dynabook interino (apesar de ser maior que um desktop atual) por apresentar uma interface gráfica (GUI) e por ser um sistema aberto que podia ser facilmente reprogramado (Smalltalk). Lembre-se que nesse tempo não haviam nem laptops, logo esse projeto era realmente visionário (ou maluco mesmo).

Alan Kay apud Steve Jobs : "Pessoas que levam o software a sério deveriam criar seu próprio hardware"

O projeto Alto foi desenvolvido no Xerox PARC e foi de fundamental influência na criação do Macintosh. O próprio Alan Kay participava do grupo de tecnologia avançada da Apple entre 1984 e 1997 e influência bastante as ideias de Steve Jobs, tendo sido citado na apresentação do iPhone.

Analisando alguns trechos da conferencia All Things Digital de 2007 onde foram entrevistados Steve Jobs e Bill Gates no mesmo palco, tentei decifrar a estratégia que a Apple parece estar construindo nos ultimos 10 anos, de modo parecido como a Fundação de Asimov criou uma estratégia contra o Império. Entenda Império como Microsoft (e antes dela a IBM).

Tivemos de desenvolver técnicas e métodos novos que o Império não pode imitar (…). Com todos os seus escudos nucleares, gigantes o bastante para proteger uma nave, uma cidade ou um planeta inteiro, nunca haviam sido capazes de criar algo que pudesse proteger a um único indivíduo (…). Toda a guerra é uma batalha entre esses dois sistemas, entre o Império e a Fundação, entre os grandes e o pequeno.

Peço que assistam esse trecho de 3 minutos antes de continuarem.

Quando a IBM entrou no mercado de computadores pessoais para competir com a Apple, no início da decada de 80 havia poucas chances para a Apple. Com o acordo feito com a Xerox que permitiu acesso às pesquisas sobre interfaces gráficas, a Apple conseguiu ganhar mais um fôlego, se destacando da concorrência por apresentar uma interface gráfica de fácil uso. Apesar disso, por inúmeras razões sendo a principal uma estratégia de preços altos, a Apple perdeu cada vez mais mercado e a Microsoft inicialmente de carona com a IBM dominou o mundo da computação pessoal com o Windows. Nesse meio tempo nenhuma iniciativa viável surgiu para competir (nem o Linux).

Se eu administrasse a Apple, eu iria sugar o Macintosh por todo o valor que ele tem — e me ocuparia na próxima grande coisa. A guerra do PC acabou. Pronto. Microsoft venceu faz muito tempo.

If I were running Apple, I would milk the Macintosh for all it’s worth — and get busy on the next great thing. The PC wars are over. Done. Microsoft won a long time ago.

Steve Jobs em entrevista a revista fortune em 1996

Em 1997 depois da Apple quase falir, Steve Jobs retorna à empresa e faz um acordo que parecia loucura. Depois de anos da Apple tentar provar que era melhor que a Microsoft, que Mac era melhor que Windows, as duas empresas entram em acordo e encerram todos os processos que acusavam a Microsoft de copiar o Mac, entre outras coisas. Disse que não valia a pena competir com a Microsoft.

Dai em diante, seguiram vários passos aparentemente inesperados. Em 2001 lança o iPod, o que parecia ser um desvio na estratégia de uma empresa que fazia apenas computadores. Em 2003 passa a vender música e vídeo através da loja virtual do iTunes, em 2005 deixa de desenvolver seu próprio processador para aderir a uma plataforma muito parecida com as máquinas que rodam windows decendentes do primeiro IBM PC, usando processadores Intel. Em 2007 apelam de vez, lançando um celular e tirando o “computer” do nome da empresa (Apple Computer Inc se torna Apple Inc).

Nesse mesmo ano, comparece à entrevista onde cita a ideia de que hoje está se desenvolvendo o que seriam os dispositivos pós-PC. Suas principais características seriam a mobilidade, conectividade e funções mais especificas, mais focadas que um computador. Por exemplo, um iPod é especializado em música, apesar de ter um processador capaz até de rodar linux.

Acredito que a estratégia tem sido usar o Mac como uma fonte de renda (junto com iPods e vendas de músicas) para financiar pesquisas nos últimos 10 anos que permitissem que  quando a era PC chegasse ao seu final definitivo a Apple estivesse preparada para começar a jogar esse novo jogo já em vantagem. Nessa nova era talvés a Apple conseguisse tentar de novo o que fez com o Mac, ser pioneira e guiar uma nova revolução.

Por ultimo, mas não menos importante (last but not least) , não podemos deixar de citar o Google. Essa é outra empresa que alardeia o fim da era PC e pretende implementar os sonhos que o Eric Schmidt trouxe da Sun (“The network is the computer”) de uma nova plataforma baseada na nuvem. Mas essa história pode ficar para depois…

ps: declaração de Alan Kay sobre a tablet : With the Tablet, Apple Will Rule the World.

Sobre Diego Ruggeri

Hanc marginis exiguitas non caperet


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