Conhece Josué de Castro?

Olá pessoas!

Pois é, eu sei bem que estou sumida. A faculdade está decidida a acabar até com minhas horas de sono e banho, quem dirá as horas do computador, hum… Pois é, um bom filho pródigo a casa sempre retorna.

Aproveitando o feriado mais que esperado para postar algo significativo no QueNerd, estava ainda na quarta feira pela manhã pensando no que poderia escrever. Até dar a hora da aula.

E então… Você conhece Josué de Castro?

Eu não conhecia até quarta feira passada.

O assunto da aula foi ‘Segurança Alimentar e Nutricional’. Segurança em que sentido? No sentido de se garantir a população o acesso aos nutrientes fundamentais da alimentação de todo e qualquer ser humano, de maneira que estes nutrientes estejam em suas proporções corretas e suficientes, possuindo qualidade desejável para ser ‘comestível’. Um bom exemplo dessa qualidade que se busca nos alimentos é a presença de compostos que fazem mal à nossa saúde, como as gorduras trans e a gordura vegetal hidrogenada. Em relação às gorduras trans, na década de 60, eis que surge a novidade que vinha para substituir a manteiga. A margarina foi popularizada como a solução para os problemas cardiovasculares que supostamente a ingestão de manteiga ocasionava. Porém, a gordura trans que compunha (ou ainda compõe) a margarina era mais prejudicial que os ácidos graxos saturados da manteiga (Huuum, quem dera se a vida fosse tão linda como nas propangandinhas de margarina, hein?). É claro que se você acabar com a manteiga ou a margarina de uma vez só, independente de elas terem gorduras trans ou saturadas, corre o risco de enfartar por aí. Afinal de contas, como nossas mães dizem : um pouco de cada vez, meu filho. Vai devagar…

Mudando de assunto, sabemos que a realidade não é tão positiva no Brasil e no mundo – mais especificamente do lado de fora da nossa janela. Traduzindo, nenhum de nós confortavelmente sentados numa cadeirinha olhando para a tela do computador se depara ou já se deparou com uma situação de fome. A essa altura, você já sabe que não é da fome de Mc Lanche Feliz que eu estou falando.

A fome no Brasil é um tema antigo, e muitos estudiosos e presidentes por aí afora tentam buscar soluções para tal. É complicado garantir um bem essencial para todos os seres humanos, vivendo numa sociedade extremamente desigual. Até mesmo a doação de alimentos, se vista de certo ângulo, pode nos distanciar de uma solução. Primeiramente, porque a doação é feita na medida das sobras. Outro aspecto negativo da doação é que ela mantém o sistema imperturbável, ou seja, o rico continua rico e o pobre continua pobre. Além do que, mistifica-se a pobreza como sina, descartando o indivíduo que é pobre como agente de mudança. O pobre continua sendo o impotente ‘coitado’ da nossa sociedade.

Josué de Castro

Josué de Castro

Diante de tanta coisa a se analisar, eis que um cara genial, brasileiro nascido em Recife e graduado em medicina pela Universidade do Brasil em 1929 (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro) tomou as rédeas deste tema que lhe intrigava. Aproximava-se dessa realidade, principalmente quando visitava os mangues da região que vivia. Um estudo que desenvolveu constatou que a carência alimentar do brasileiro era de carboidratos (alimentos que tem como função primordial promover energia), contrariando o pensamento da época, que dizia que a carência nutricional era de proteínas (carne e ovos). Foi autor de inúmeras obras, apresentando idéias revolucionárias para a época, como os primeiros conceitos sobre o desenvolvimento sustentável. Josué de Castro não parou por aí: além de médico, era geógrafo e sociólogo, falava muitas línguas, dominava bem o francês. Em 46, publicou o livro “Geografia da Fome”, que caracteriza muitos aspectos importantíssimos deste tema – social, cultural e geograficamente. Em 1962, foi embaixador do Brasil na ONU – Organização das Nações Unidas. Foi presidente da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). Recebeu o título de Cidadão do Mundo, mediante seu brilhante trabalho. Recebeu o Prêmio Internacional da Paz e indicações para o Prêmio Nobel da Paz.

Porém, como nem tudo são flores, Josué de Castro teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar que dominou o país a partir de 1964, pois era considerado um “socialista”, portanto, uma ameaça. Exilou-se em Paris, e lá fundou, em 1965, o Centro Internacional para o Desenvolvimento, além de ser presidente da Associação Médica Internacional para o Estudo das Condições de Vida e Saúde. O governo francês o designa professor estrangeiro associado ao Centro Universitário Experimental de Vincennes (Universidade de Paris VIII), onde trabalhou até sua morte. Enquanto estava exilado em Paris, afirmou que “não se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite crônica, mas também de saudade”. Faleceu lá mesmo, em 24 de setembro de 1973, enquanto esperava o passaporte que o traria de volta ao Brasil. O passaporte chegou, porém já era tarde. É, nosso Brasil negou abrir as portas ao homem que o representou numa carreira tão brilhante. Só depois de morto Josué pode voltar ao Brasil, para ser enterrado.

Você já ouviu falar desse cara? Sua resposta foi não? Pois é, a grande maioria de nós nem conhecia o nome dele. E pior de tudo: o resto do mundo o conhece, o Brasil não. Os tempos de ditadura apagaram a história de Josué de Castro, e até hoje a gente pouco sabe sobre o cidadão brasileiro que mais colaborou nas questões mundiais sobre a fome.

Minha colega de classe vinda do continente africano no ano passado para fazer faculdade (mais especificamente, do Congo), espantou-se com a nossa ‘ignorância’. No país dela, as idéias de Josué de Castro são amplamente difundidas; inclusive os assuntos dos livros que ele publicou são os temas das dissertações que se aprende nas escolas de lá. Por fim, sabe como se chamava a escola que ela freqüentava no Congo? Josué de Castro.

É de chorar, não? Como podemos deixar esquecer algo tão importante para nosso país, só pelo fato de ter sido censurado durante a ditadura? Creio que, antes de conhecermos sobre Einstein, Proust, Gandhi; que seja, precisaríamos de mais conhecimento, valorização e atenção para as personalidades brilhantes que existiram e existem em nosso país.

http://www.projetomemoria.art.br/JosuedeCastro/index.html

http://www.josuedecastro.com.br/port/video.html

Sobre Vanessa

No auge da ruptura das barreiras nerd - para vosso benefício ou desgraça - eis que o blog foi aberto às idéias de um ser feminino, desprovido de pensamento lógico, sem noções de programação, e bem pouca de matemática. Prefere as ciências humanas, apesar de ultimamente estudar muita bioquímica e biologia molecular (¬¬’), pois está se graduando em enfermagem. Histórias à parte, todo mundo tem um lado quenerd, pois, ser nerd não é apenas programar, viver numa bolha, se enforcar com as calças... Nerd se tornou um estado de espírito (Espírito Santo é um estado, espírito nerd também? Chora depois dessa). Pois é, esse estado anda aflorado ultimamente. E perdoem-me pelo ‘se enforcar com as calças’. A moda anda favorecendo os nerds ultimamente.


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COMENTÁRIOS

  1. Will disse:

    Pois é…
    Na hora do alistamento militar eles vêm com aquele papo de patriotismo. Uma ova, nunca serei patriota de uma nação que não valoriza quem faz muito por ela.
    Por mais que Josué de Castro quis voltar, acho bom ele não ter morrido aqui. Morreu pelo menos em um lugar onde o respeitavam e gostavam do que ele fazia.

  2. Paulo Mendes disse:

    Realmente, eu não conhecia Josué de Castro até ler esse maravilhoso Artigo.

    Sinceramente, o Brasil é uma piada quando se fala em Tesouro Nacional, não valorizamos nem os nossos jogadores brasileiros quiçá grandes nomes da história !

    Voto por ter um artigo desses periodicamente para que saiamos de nossa ignorância fútil e comecemos a dar valor para quem realmente precisa !

    PS: E enquanto isso nosso presidente Lula está em Genebra dando o maior apoio para o Kassab para que as olimpíadas de 20xx sejam no Rio.

  3. disse:

    é simples ver os heróis da população brasileira:
    só pergunta o nome do ganhador do BBB 2009 ou quem tá na fazenda da record.

    Eu tb não conhecia Josué de Castro, mas falam dele por aqui?
    O Brasil precisa mudar em relação a isso… quem sabe daqui umas gerações…

  4. Puga disse:

    Pois é, mais um brasileiro esquecido pelo tempo. Na verdade nem é pela questão do regime militar, naquele período muitos foram eliminados pelos canalhas que hoje estão no poder e dizem ter “lutado contra a ditadura”, mas que na verdade queriam apenas implantar a sua “própria ditadura”. José de Castro se reune a outros nomes abandonados em troca de BigBrothers, Sarneys, Lullas, Dilmas, Ciros, Serras e tantos outros ignóbeis que destroem o país…

  5. Juh disse:

    uuau :o
    nuncaa tinha ouvido sobre ele!

    Por mais que Josué de Castro quis voltar, acho bom ele não ter morrido aqui. Morreu pelo menos em um lugar onde o respeitavam e gostavam do que ele fazia. [2]

  6. Pingback: Onde está o patriotismo? « :: Que Nerd ::

  7. Anderson disse:

    Olá, eu já conhecia Josué, tanto por ter estudado um pouco dele.

    O incrivel é o dizer onde está o patriotismo?, ou a nação não dá valor as verdadeiros herois brasileiros.
    Mas para falar a verdade, quando se referimos a nação estamos falando de nós, eu, você, ele, ela. E todos os outros brasileiros, quando dizem que a midia não passa a história de grandes herois é fato, mas o importante é saber que ela não passa porque você prefere ficar assistindo panico da TV do que ir atrás e buscar saber mais sobre a história do seu pais. Se fossemos uma nação culta, com certeza a midia iria refletir isso.

    Porem, quando dizemos que não nos foi passada alguma informação sobre algum heroi de nosso país devemos pensar primeiro, porque não fomos atrás para saber sobre isso? Informação está ai é só você ir buscar.

    É dever e obrigação de todos nós como brasileiros conhecermos nossos herois nacionais. Vergonha é NÓS não sabermos quem são eles e não dar a eles os respectivos valores.

  8. Pingback: Redatores do Que Nerd 1.0 « :: Que Nerd ::

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